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Biotecnologia: ciências em colaboração

Notícias 19 de maio de 2016

Diversos especialistas concordam que as biociências estarão entre as áreas que mais vão atrair investimentos e profissionais ao longo deste século. Nesse cenário, a biotecnologia se destaca pela elevada potencialidade de gerar novos produtos para o progresso da agricultura, da geração de energia e saúde. Entretanto, por ser um campo relativamente recente, o desenvolvimento de novas tecnologias neste segmento depende da colaboração entre setores.

Ao longo da formação do profissional de biotecnologia, há um constante estímulo ao desenvolvimento de produtos. Apesar disso, a maior parte dos currículos não é focada nos mecanismos necessários para a obtenção de patentes, processo regulatório brasileiro e questões mercadológicas. Embora os pesquisadores possuam o conhecimento técnico, para chegarem a uma aplicação comercialmente viável, recorrerem a parcerias com instituições.

Além disso, a biotecnologia é uma aplicação da ciência que exige tempo e recursos. De acordo com levantamento realizado por Phillips McDougall, para que uma planta transgênica esteja disponível ao consumidor são necessários, em média, 13 anos. Nesse período, aproximadamente US$ 136 milhões são investidos. Essa é mais uma razão pela qual é necessário estabelecer cooperações para que os cientistas consigam desenvolver produtos que alcancem o mercado.

Não faltam exemplos bem-sucedidos dessa interação. Nos Estados Unidos a parceria entre Universidade do Havaí e uma empresa de sementes transgênicas levou ao mercado uma variedade de mamão resistente a um vírus endêmico no arquipélago. Na América Latina, a Universidade Nacional do Litoral da Argentina é a responsável pela identificação dos genes que expressam a tolerância ao estresse hídrico em uma soja transgênica recentemente aprovada.

No Brasil, é também com base na colaboração que a Embrapa está lançando produtos biotecnológicos. Em parceria com a agência de cooperação japonesa e Universidade de Nagoya, a empresa brasileira está em fase avançada na obtenção de cultivares de soja tolerantes à seca. Resultado de um modelo semelhante, após 20 anos de trabalho da Embrapa e da BASF, foi lançada uma soja geneticamente modificada tolerante a herbicidas da classe das imidazolinonas.

A relação entre a iniciativa privada e o setor público é cada vez mais atual e relevante para a sociedade. Parcerias entre esses setores, realizadas de maneira regulamentada, já resultaram no lançamento de diversos inovações. De fato, no cenário de grande fluxo de informações, a interação entre a academia e a indústria têm se tornado intensa, levando a uma saudável troca de experiências.

Quando estamos tratando de ciências que estão na fronteira do conhecimento como aquelas que subsidiam a biotecnologia, a independência dos cientistas deve ser avaliada à luz dessa realidade. O fato de um pesquisador ter colaborado com uma empresa em algum momento de sua carreira não prejudica a natureza autônoma de sua atividade. Ao contrário, revela sua capacidade de estabelecer interações multidisciplinares, de potencializar o número de oportunidades e possibilidades de resultados efetivos para a sociedade.

FLÁVIO FINARDI é professor associado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP); LEILA MACEDO é presidente da Associação Nacional de Biossegurança (ANBIO) e WALTER COLLI é professor emérito do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP)

Disponível em: http://www.folhadelondrina.com.br/?id_folha=2-1–1223-20160516&tit=espaco%20aberto